Relatos de mal-estar persistem entre moradores e trabalhadores dois dias após vazamento de gás tóxico em Manaus

Resumo

  • Força-tarefa tem dificuldades para conter vazamento de gás em Manaus Moradores e trabalhadores que vivem ou atuam nas proximidades da empresa Innova, no Distrito Industrial de Manaus, relataram ao g1 na noite desta sexta-feira (17) que sentiram mal-estar após o vazamento de monômero de estireno registrado na quarta-feira (15).
  • O vazamento no tanque da Innova foi registrado às 17h36 de quarta-feira (15), após uma elevação anormal na temperatura do monômero de estireno, substância utilizada na fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e isopor.
  • 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp A doméstica Rosivete Ferreira, de 63 anos, disse que começou a sentir os primeiros sintomas na manhã de quinta-feira (16), horas após o vazamento.
  • Segundo a especialista, a substância é tóxica e a inalação pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dores de cabeça, tontura e náuseas.

Força-tarefa tem dificuldades para conter vazamento de gás em Manaus

Força-tarefa tem dificuldades para conter vazamento de gás em Manaus

Moradores e trabalhadores que vivem ou atuam nas proximidades da empresa Innova, no Distrito Industrial de Manaus, relataram ao g1 na noite desta sexta-feira (17) que sentiram mal-estar após o vazamento de monômero de estireno registrado na quarta-feira (15). Entre os sintomas citados estão náusea, dor de cabeça, irritação nos olhos, aperto na garganta, falta de ar e diarreia.

O vazamento no tanque da Innova foi registrado às 17h36 de quarta-feira (15), após uma elevação anormal na temperatura do monômero de estireno, substância utilizada na fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e isopor. A exposição ao produto por inalação pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dores de cabeça, tontura e náuseas.

A doméstica Rosivete Ferreira, de 63 anos, disse que começou a sentir os primeiros sintomas na manhã de quinta-feira (16), horas após o vazamento. Ela afirmou que o forte odor da substância continua sendo percebido na região.

“Eu senti náuseas, muito enjoo, um aperto na garganta e dor de cabeça. Meu olho ficou parecendo que estava cheio de pimenta, ardendo demais”, relatou.

Moradora de uma região próxima ao local do vazamento, ela afirmou que não procurou atendimento médico e disse que manteve a casa fechada durante parte do dia por causa do cheiro.

“Quando eu abria a casa ainda sentia aquele cheiro. Preferi ficar com tudo fechado até meio-dia. Depois comecei a ligar os ar-condicionados e foi passando. Até a noite (de quinta-feira) eu ainda tinha sintomas”, disse.

Já o ajudante de caminhão Luiz Ferreira, que trabalha em uma empresa instalada nas proximidades da Innova, também afirmou ter apresentado sintomas após o vazamento. Ele relatou, ainda, que colegas de trabalho passaram mal durante o expediente, mas as atividades não foram interrompidas.

“O pessoal começou a correr para o banheiro. Quando cheguei em casa também passei mal. Tive dor de cabeça e diarreia”, afirmou.

Luiz disse que o cheiro da substância permanecia forte na empresa após o vazamento e que os funcionários continuaram trabalhando normalmente.

“Hoje trabalhei normal, mas estava o cheiro forte lá dentro. Não deram nenhuma orientação e a fábrica não parou em nenhum momento”, afirmou. Ele disse que também não procurou atendimento médico.

Os relatos feitos ao g1 descrevem sintomas compatíveis com os efeitos da exposição ao monômero de estireno apontados pela chefe do Departamento de Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Karime Bentes. Segundo a especialista, a substância é tóxica e a inalação pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dores de cabeça, tontura e náuseas.

A pesquisadora explicou ainda que o estireno é armazenado na forma líquida, mas evapora rapidamente e, ao se tornar gás, pode se espalhar por grandes distâncias. Ela também alertou que, dependendo da concentração da substância na atmosfera, a chuva pode reagir com o produto e formar compostos nocivos e estireno líquido, aumentando o risco de contaminação ambiental.

Fábrica da Innova, em Manaus. — Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica

O incidente

O vazamento de monômero de estireno foi registrado às 17h36 de quarta-feira, na Unidade IV da Innova. O forte odor do produto químico foi percebido em bairros próximos ao Distrito Industrial e levou à evacuação imediata de um shopping localizado nas proximidades da empresa.

Desde a ocorrência, equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) atuam no resfriamento do tanque para controlar a temperatura e evitar novos riscos. A principal hipótese investigada pela corporação é de uma reação espontânea no interior da estrutura.

Até a tarde sexta-feira (17), a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) informou que realizou 211 atendimentos relacionados ao vazamento. Do total, 209 pacientes receberam alta, um permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e um homem de 67 anos morreu após procurar atendimento médico. Segundo a pasta, não foi constatada relação direta entre o óbito e a ocorrência, já que o paciente apresentava histórico de doença respiratória crônica.

Em nota, a Innova informou que a ocorrência foi controlada conforme os protocolos de emergência da companhia e que todo o resíduo gerado foi armazenado para tratamento adequado.

A empresa afirmou ainda que não houve incêndio, vazamento de produto líquido para fora da área de contenção nem registro de vítimas.

“A situação foi prontamente contida de acordo com os procedimentos de emergência estabelecidos pela Companhia”, informou a empresa.

A Innova também declarou que não há risco de desabastecimento para clientes e que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Gás pode ser considerado tóxico

O monômero de estireno, substância que vazou de um tanque da empresa Innova, em Manaus, é um produto químico tóxico, segundo a chefe do Departamento de Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Karime Bentes. A especialista também destacou que, em determinadas condições climáticas, o gás pode reagir e formar compostos nocivos que se espalham por grandes distâncias pelo ar.

Karime Bentes explicou que o monômero de estireno é utilizado na fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e poliestireno expandido (isopor). De acordo com ela, a exposição ao produto por inalação pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dores de cabeça, tontura e náuseas.

A especialista afirma que o produto é originalmente liquido, mas ao se tornar gás, tende a se espalhar com mais facilidade, podendo chegar a locais distantes do ponto de vazamento.

“O estireno é um produto químico que se apresenta na forma liquida, mas que evapora rapidamente. Ao se tornar gás, é mais pesado que o oxigênio, podendo se espalhar por grandes distâncias”, disse.

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Multas a empresa ultrapassam R$ 20 milhões

A Innova foi multada em mais de R$ 20 milhões pela Prefeitura de Manaus após inspeções técnicas realizadas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e por uma força-tarefa formada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) e Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil (Sepdec).

Nesta sexta-feira (17), a empresa foi autuada em 35 mil Unidades Fiscais do Município (UFMs), o equivalente a R$ 5.347.300, por poluição do solo e de corpo hídrico. A prefeitura identificou, com auxílio de drones equipados com câmeras térmicas, fissuras em parte do tanque e constatou a continuidade do vazamento.

Horas depois, o Ipaam informou que a Innova foi autuada em R$ 12,5 milhões por infração à legislação ambiental, em razão da poluição atmosférica provocada pelo incidente.

Na quinta-feira (16), a prefeitura já havia aplicado outra multa à empresa, de 30 mil UFMs, equivalente a R$ 4.554.300, por poluição do ar causada pela emissão de gases.

Somadas, as multas chegam a R$ 22.401.600,00. Os recursos arrecadados com as multas aplicadas pela prefeitura serão destinados ao Fundo Municipal para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (FMDMA), responsável por financiar ações da política ambiental do município. O Governo do Estado não informou a destinação do valor.

O g1 entrou em contato com a Innova sobre a multa, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.

Orientações de saúde

A SES-AM orienta que pessoas que apresentem sintomas como irritação nos olhos, dor de garganta, falta de ar, tontura, náusea, dor de cabeça, sonolência, confusão mental ou perda de consciência procurem uma unidade de saúde ou acionem o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelo telefone 192.

A Defesa Civil recomenda que a população permaneça em locais abertos e ventilados, mantenha portas e janelas abertas para favorecer a circulação do ar e desligue aparelhos que captem ar do ambiente externo, como ar-condicionado e sistemas de ventilação.

INFOGRÁFICO – Vazamento de gás deixa área isolada em Manaus. — Foto: g1

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