Do colapso na saúde ao caos climático: o raio-x das crises que atingiram o Amazonas nos últimos anos

Resumo

  • Sara Rangel O Governo do Amazonas decretou situação de emergência em saúde pública por 180 dias após a seca extrema isolar mais de 600 comunidades no interior e acidentes fluviais causarem a perda de remédios e cilindros de oxigênio medicinal.
  • Em um intervalo de cinco anos, a população amazonense enfrentou a crise de falta de oxigênio na pandemia de Covid-19, a maior cheia da história do Rio Negro, secas severas consecutivas e recordes de queimadas que encobrem cidades inteiras.
  • O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado pedem indenização de R$ 4 bilhões contra a União, o governo estadual e a Prefeitura de Manaus por supostas omissões e falhas de planejamento.
  • Em outubro de 2023, o Rio Negro chegou a 13,59 metros em Manaus, superando o recorde de seca registrado em 2010 e atingindo o menor nível em 121 anos de monitoramento, segundo os dados apresentados.

Seca do Rio Negro em 2026 – Manaus — Foto: Sara Rangel

O Governo do Amazonas decretou situação de emergência em saúde pública por 180 dias após a seca extrema isolar mais de 600 comunidades no interior e acidentes fluviais causarem a perda de remédios e cilindros de oxigênio medicinal. Ao mesmo tempo, Manaus voltou a registrar os piores índices de qualidade do ar do Brasil devido à fumaça de incêndios florestais, problema que também afeta municípios no interior.

O cenário atual reforça um histórico recente de eventos extremos que atingem o estado. Em um intervalo de cinco anos, a população amazonense enfrentou a crise de falta de oxigênio na pandemia de Covid-19, a maior cheia da história do Rio Negro, secas severas consecutivas e recordes de queimadas que encobrem cidades inteiras.

O g1 preparou um raio-x dos principais episódios dessa sequência de crises. Veja abaixo:

Crise do oxigênio provocou colapso na saúde em 2021

Mutirão em vários estados brasileiros leva oxigênio à capital do Amazonas

Mutirão em vários estados brasileiros leva oxigênio à capital do Amazonas

Em janeiro de 2021, Manaus viveu um dos momentos mais graves da pandemia de Covid-19. O avanço da segunda onda da doença provocou um aumento expressivo nas internações e levou o sistema de saúde ao colapso, com a falta de oxigênio medicinal nos hospitais.

No pico da crise, o consumo diário do insumo chegou a 76,5 mil metros cúbicos, enquanto a capacidade de produção local era de 28,2 mil metros cúbicos por dia. A diferença deixou hospitais sem o abastecimento necessário para atender os pacientes.

Familiares e profissionais de saúde tentaram conseguir cilindros por conta própria, enquanto pacientes precisaram ser transferidos para unidades de outros estados. Mais de 500 pessoas foram removidas às pressas para receber atendimento fora do Amazonas.

O episódio também gerou disputas judiciais sobre a responsabilidade dos governos e das autoridades envolvidas na resposta à emergência. O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado pedem indenização de R$ 4 bilhões contra a União, o governo estadual e a Prefeitura de Manaus por supostas omissões e falhas de planejamento.

Imagens mostram crise do oxigênio durante pandemia em Manaus

Forças Armadas transportam cilindros  de oxigênio para Manaus — Foto: Ministério da Defesa/Divulgação
Com hospitais cheios, Manaus enfrenta uma crise no abastecimento de oxigênio — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Movimentação na frente do Hospital e pronto-socorro 28 de agosto, em Manaus (AM), na tarde desta quinta-feira (14). Familiares reclamam da falta de oxigênio para seus pacientes internados no hospital. Na foto, chegada de um cilindro de oxigênio. — Foto: SANDRO PEREIRA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Homem chora na porta do Hospital 28 de Agosto, em Manaus, em meio a desabastecimento de oxigênio na cidade durante novo surto de Covid-19 na quinta-feira, 14 de janeiro. — Foto: Michael Dantas/AFP
Oxigênio foi apreendido e distribuído em unidades de saúde de Manaus. — Foto: Divulgação/SSP-AM
Caminhão da empresa White Martins é abastecido de oxigênio em Manaus após chegada de carga levada por avião da Força Aérea Brasileira — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Projeção no centro da cidade de São Paulo, SP, com os dizeres ¨Oxigênio pra Manaus¨, nesta quinta feira, 14. — Foto: ALLISON SALES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Familiares de pacientes com Covid fazem fila para encher cilindros de oxigênio em empresa privada de Manaus — Foto: REUTERS/Bruno Kelly
Principal foco de doações recebida por ações solidárias é conseguir oxigênio para o sistema de saúde de Manaus. — Foto: Tadeu Jr/Parceiros Brilhantes
Campanha está ajudando a abastecer cilindros de oxigênio vazios de hospitais de Manaus para ajudar a suprir alta demanda. — Foto: Tadeu Jr/Parceiros Brilhantes
Famílias em busca de oxigênio em Manaus. — Foto: Rede Amazônica
Movimentação na frente do Hospital e pronto-socorro 28 de agosto, em Manaus (AM), na tarde desta quinta-feira (14). Familiares reclamam da falta de oxigênio para seus pacientes internados no hospital. — Foto: SANDRO PEREIRA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Fila para comprar oxigênio em Manaus. — Foto: Rede Amazônica
Aumento de internações lotou hospitais em Manaus e acabou com estoque de oxigênio. Pacientes morreram asfixiados — Foto: Edmar Barros/AP Photo
Parentes de pacientes internados em Manaus fazem fila para compra de oxigênio no dia 18 de janeiro. — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Fila para conseguir oxigênio em Manaus — Foto: Profissão Repórter
Em Manaus, familiares tiveram de comprar oxigênio de vendedores particulares para tratar de parentes doentes — Foto: Reuters

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Forças Armadas transportam cilindros de oxigênio para Manaus — Foto: Ministério da Defesa/Divulgação

Forças Armadas transportam cilindros  de oxigênio para Manaus — Foto: Ministério da Defesa/Divulgação
Com hospitais cheios, Manaus enfrenta uma crise no abastecimento de oxigênio — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Movimentação na frente do Hospital e pronto-socorro 28 de agosto, em Manaus (AM), na tarde desta quinta-feira (14). Familiares reclamam da falta de oxigênio para seus pacientes internados no hospital. Na foto, chegada de um cilindro de oxigênio. — Foto: SANDRO PEREIRA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Homem chora na porta do Hospital 28 de Agosto, em Manaus, em meio a desabastecimento de oxigênio na cidade durante novo surto de Covid-19 na quinta-feira, 14 de janeiro. — Foto: Michael Dantas/AFP
Oxigênio foi apreendido e distribuído em unidades de saúde de Manaus. — Foto: Divulgação/SSP-AM
Caminhão da empresa White Martins é abastecido de oxigênio em Manaus após chegada de carga levada por avião da Força Aérea Brasileira — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Projeção no centro da cidade de São Paulo, SP, com os dizeres ¨Oxigênio pra Manaus¨, nesta quinta feira, 14. — Foto: ALLISON SALES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Familiares de pacientes com Covid fazem fila para encher cilindros de oxigênio em empresa privada de Manaus — Foto: REUTERS/Bruno Kelly
Principal foco de doações recebida por ações solidárias é conseguir oxigênio para o sistema de saúde de Manaus. — Foto: Tadeu Jr/Parceiros Brilhantes
Campanha está ajudando a abastecer cilindros de oxigênio vazios de hospitais de Manaus para ajudar a suprir alta demanda. — Foto: Tadeu Jr/Parceiros Brilhantes
Famílias em busca de oxigênio em Manaus. — Foto: Rede Amazônica
Movimentação na frente do Hospital e pronto-socorro 28 de agosto, em Manaus (AM), na tarde desta quinta-feira (14). Familiares reclamam da falta de oxigênio para seus pacientes internados no hospital. — Foto: SANDRO PEREIRA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Fila para comprar oxigênio em Manaus. — Foto: Rede Amazônica
Aumento de internações lotou hospitais em Manaus e acabou com estoque de oxigênio. Pacientes morreram asfixiados — Foto: Edmar Barros/AP Photo
Parentes de pacientes internados em Manaus fazem fila para compra de oxigênio no dia 18 de janeiro. — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Fila para conseguir oxigênio em Manaus — Foto: Profissão Repórter
Em Manaus, familiares tiveram de comprar oxigênio de vendedores particulares para tratar de parentes doentes — Foto: Reuters

Maior cheia da história atingiu mais de 455 mil pessoas

Cinco meses depois da crise do oxigênio, o Amazonas enfrentou outra emergência. Em junho de 2021, o Rio Negro atingiu 30,02 metros em Manaus, a maior marca desde o início das medições oficiais, em 1902.

A cheia afetou mais de 455 mil pessoas no estado. Na capital, a água invadiu ruas do Centro Histórico e atingiu locais como a Praça do Relógio e o prédio da Alfândega. A tradicional feira Manaus Moderna precisou transferir parte das atividades para uma estrutura flutuante.

Para permitir a circulação de pedestres nas áreas alagadas, foram construídos cerca de 13 mil metros de pontes e passarelas de madeira. O nível recorde do rio também evidenciou os impactos das cheias sobre a moradia, o transporte e a atividade econômica das populações ribeirinhas.

Rio Negro sobe e Manaus registra a maior cheia da história

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Seca histórica em 2023 isolou comunidades e agravou danos ambientais

Depois da cheia recorde, o estado enfrentou uma mudança extrema no regime dos rios. Em outubro de 2023, o Rio Negro chegou a 13,59 metros em Manaus, superando o recorde de seca registrado em 2010 e atingindo o menor nível em 121 anos de monitoramento, segundo os dados apresentados.

A estiagem afetou os 62 municípios do Amazonas, que decretaram situação de emergência. Mais de 600 mil pessoas foram impactadas pela falta de água e pelas dificuldades de transporte e abastecimento.

Com a redução do nível dos rios, extensos bancos de areia surgiram e a navegação ficou comprometida. Escolas rurais suspenderam atividades, e a praia da Ponta Negra, em Manaus, precisou ser interditada.

Casas flutuantes ficam “encalhadas” durante seca do Rio Negro, em Manaus. — Foto: Matheus Castro/g1

A seca também agravou o fenômeno conhecido como terras caídas, quando partes das margens dos rios desmoronam. Em Beruri, no interior do estado, o problema provocou destruição e atingiu comunidades.

O período também foi marcado por temperaturas elevadas. Em 2 de outubro de 2023, Manaus registrou 39,2 °C, uma das maiores temperaturas da série histórica mencionada para a capital.

Em 2024, seca bateu novo recorde e queimadas se espalharam

Em 2024, a estiagem voltou a atingir níveis extremos. Em outubro, o Rio Negro chegou a 12,11 metros em Manaus, superando a marca do ano anterior e estabelecendo um novo recorde de seca em mais de 120 anos de medições.

Mais de 800 mil pessoas foram afetadas em todo o Amazonas, segundo o governo do Estado. Os impactos chegaram ao transporte, ao abastecimento e à economia, com prejuízos estimados em mais de R$ 600 milhões.

A vegetação seca e as condições climáticas favoreceram a propagação de incêndios florestais. O Amazonas registrou mais de 25 mil focos de queimadas ao longo do ano, o maior número em 26 anos, conforme os dados atribuídos ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A fumaça se espalhou por diferentes regiões do estado e encobriu Manaus em diversos períodos. A poluição do ar passou a representar mais um problema para a população, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.

Seca dos rios tem impacto sobre a economia do AM e as famílias de mais de 800 mil pessoas

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Fumaça das queimadas voltou a afetar Manaus em 2026

Em 2026, a fumaça voltou a comprometer a qualidade do ar em Manaus e em municípios do interior. Entre setembro e outubro, episódios de poluição foram associados a incêndios florestais na Região Metropolitana e em outras áreas do estado.

Os índices de qualidade do ar chegaram a níveis considerados ruins e perigosos em determinados períodos, com concentração elevada de partículas finas. Esses poluentes podem penetrar profundamente no sistema respiratório e agravar problemas de saúde.

Os efeitos chegaram à rotina da população. Aulas da rede municipal foram suspensas, eventos esportivos ao ar livre foram cancelados e unidades de saúde registraram atendimentos por problemas respiratórios.

A fumaça também reacendeu o debate sobre prevenção e combate aos incêndios, fiscalização ambiental e capacidade de resposta do poder público diante de emergências que se repetem a cada período de estiagem.

Fumaça cobre Manaus novamente neste sábado (17). — Foto: Alcides Neto

Seca de 2026 ameaça abastecimento de comunidades no interior

Além da fumaça, o baixo nível dos rios voltou a dificultar o acesso a comunidades do interior. Em outubro de 2026, o governo estadual decretou situação de emergência em saúde pública por 180 dias após a estiagem deixar mais de 600 comunidades isoladas.

Acidentes fluviais também provocaram a perda de medicamentos e cilindros de oxigênio medicinal, aumentando a preocupação com o atendimento de saúde em áreas de difícil acesso.

A medida busca organizar alternativas de transporte e garantir o fornecimento de insumos essenciais à população. O desafio é manter serviços básicos em funcionamento mesmo quando a redução do nível dos rios compromete a navegação.

Seca do Rio Negro, na Marina do Davi, em Manaus – 29 de outubro — Foto: William Duarte/Rede Amazônica

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