Resumo
- A cidade no AM que separa o Brasil da Colômbia por uma rua A cidade de Tabatinga, no interior do Amazonas, desafia as noções tradicionais de fronteira.
- Por lá, a divisão entre o território brasileiro e a cidade de Letícia, na Colômbia, não é feita por muros ou rios intransponíveis que separam os dois países, mas sim por uma simples via.
- 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp “A fronteira não é apenas um limite político-administrativo, mas um espaço vivido, onde as identidades se misturam e as práticas cotidianas ignoram as linhas dos mapas”, destaca o sociólogo e pesquisador, José Albuquerque.
- Maria Rita ressalta que o acesso a serviços e opções de lazer em Letícia, na Colômbia, é feito sem burocracias, o que torna a rotina dos moradores mais diversificada.
A cidade no AM que separa o Brasil da Colômbia por uma rua
A cidade de Tabatinga, no interior do Amazonas, desafia as noções tradicionais de fronteira. Por lá, a divisão entre o território brasileiro e a cidade de Letícia, na Colômbia, não é feita por muros ou rios intransponíveis que separam os dois países, mas sim por uma simples via: a Avenida da Amizade.
Nesta fronteira seca, o vaivém de pedestres e motoristas é constante e não exige documentação, revista ou qualquer tipo de burocracia para que se entre ou saia dos dois países: basta atravessar a rua.
No local, apenas um letreiro simboliza essa divisão, que só divide mesmo na teoria. Na prática, a integração é tão profunda que pesquisadores a definem como uma “cidade gêmea” ou um organismo urbano único.
“A fronteira não é apenas um limite político-administrativo, mas um espaço vivido, onde as identidades se misturam e as práticas cotidianas ignoram as linhas dos mapas”, destaca o sociólogo e pesquisador, José Albuquerque.
Essa dualidade é sentida no comércio: de um lado, o português e o real; do outro, o espanhol e o peso colombiano. Na comunicação, o “portunhol” é a língua franca que domina as interações sociais. Mas se engana quem pensa que isso gera problemas para quem vive no local.
A professora de espanhol e Miss Tabatinga, Maria Rita, define a vivência na região como uma experiência que ignora as divisões cartográficas tradicionais. Para ela, a fronteira é sentida mais pela cultura do que pela burocracia.
“Viver na tríplice fronteira é experimentar uma geografia que desafia os mapas. Na prática, a fronteira é invisível na rotina. Atravessar a rua não é um ato burocrático de mudar de país, é um movimento natural de quem vive em um organismo único, onde Tabatinga e Letícia funcionam como bairros de uma mesma grande metrópole amazônica”, afirma Maria Rita.
Maria ainda diz que a condição de “cidade gêmea” reflete não apenas a proximidade física, mas uma estrutura mental diferenciada para quem nasce na região. Ela explica que a identidade de quem vive no extremo Oeste do Amazonas é ampliada pelo convívio binacional.
“Eu me sinto profundamente brasileira, mas ser de Tabatinga é possuir uma singularidade que o restante do país nem sempre compreende: eu sou uma brasileira da fronteira. Como pesquisadora, entendo que o cidadão que nasce e cresce aqui desenvolve uma estrutura cognitiva e cultural diferenciada. Nosso olhar para o mundo é mais ‘elástico’, porque fomos alfabetizados nesse contexto linguístico e pela convivência com o outro”, ressalta.
Veículo do exercito brasileiro com as bandeiras brasileiras e colombianas. — Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
Veículo do exercito brasileiro com as bandeiras brasileiras e colombianas. — Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
Desafios e potencialidade
Segundo José Albuquerque, apesar da riqueza cultural e da posição estratégica, a cidade enfrenta desafios proporcionais à sua complexidade. A segurança pública e a logística de transporte, que depende quase exclusivamente do Rio Solimões ou de voos, são temas recorrentes nas pesquisas acadêmicas locais.
Por outro lado, o potencial turístico é vasto. Quem visita Tabatinga pode:
- Cruzar a fronteira a pé: basta caminhar pela Avenida da Amizade para trocar de país em segundos.
- Explorar o Rio Solimões: passeios de barco que conectam comunidades indígenas e áreas de preservação.
- Gastronomia mista: saborear desde o tacacá amazonense até a famosa patarashca colombiana, prato típico a base de peixe.
Maria Rita ressalta que o acesso a serviços e opções de lazer em Letícia, na Colômbia, é feito sem burocracias, o que torna a rotina dos moradores mais diversificada. Para ela, a cidade vizinha funciona como uma extensão do quintal de casa.
“O acesso ao lazer e aos serviços na fronteira é vivido com total naturalidade. Não vemos como ‘ir a outro país’, mas como aproveitar o que a nossa cidade vizinha oferece de melhor. É uma dinâmica muito simples e funcional: usufruímos da gastronomia e da cultura de Letícia com a mesma facilidade com que circulamos em Tabatinga”, destaca Maria Rita.
Além da vizinhança terrestre com a Colômbia, Tabatinga também estabelece o limite do território brasileiro com o Peru. No entanto, a dinâmica com os peruanos ganha um contorno diferente: em vez de uma rua, a fronteira é ditada pelas águas do Rio Solimões. A travessia para a ilha de Santa Rosa, a localidade peruana mais próxima, é feita em poucos minutos por meio de pequenas embarcações, conhecidas na região como “peque-peques”.
Porta de entrada para tráfico internacional de drogas
Tabatinga também sofre com ações de organizações criminosas, a cidade apontada por estudos como o ponto inicial da chamada “Rota do Solimões”, um dos principais corredores de tráfico internacional de drogas na Amazônia. Devido a localização, a cidade funciona como porta de entrada da cocaína produzida nos países vizinhos, que segue pelos rios até Manaus e depois para outras regiões do Brasil e do exterior.
A vulnerabilidade social e a ausência de fiscalização permanente tornam o território estratégico para facções criminosas. De acordo com o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam o controle da região, aproveitando-se da extensa fronteira fluvial e da circulação livre entre Tabatinga, Letícia, e Santa Rosa, no Peru.
A dinâmica na fronteira entre os territórios também proporcionou com que organizações criminosas brasileiras expandissem a atuação com dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Em entrevista ao g1, o coronel colombiano Rodriguez Contreras Carlos detalhou que facções como o CV e o PCC mantêm parcerias estratégicas com guerrilheiros para o controle de crimes ambientais e o tráfico de drogas na região de fronteira.
“Esses grupos estão presentes na região fazendo negocio, narcotráfico, garimpo ilegal. Essas estruturas, esses grupos já ultrapassaram fronteiras”, afirmou.
Mesmo com as problemáticas, a via que une Brasil e Colômbia ainda consegue fazer sobressair na rotina dos moradores o significado que carrega no nome: a amizade entre duas nações.
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Militares usam balaclava nas fiscalizações para se protegerem do crime organizado. — Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
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Entrada de Tabatinga na fronteira com a Colômbia — Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
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Placa que marca o encontro entre Letícia e Tabatinga. — Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
Placa que marca o encontro entre Letícia e Tabatinga. — Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas