Como o Polo Industrial de Manaus pode avançar na cadeia dos semicondutores

Resumo

  • 065, publicado em 15 de julho, criou um conselho gestor e autorizou a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) no apoio à implantação, modernização e expansão de empreendimentos do setor.
  • Os recursos serão destinados principalmente à fábrica de Atibaia, incluindo máquinas de montagem, testes, manipulação e medição, além do desenvolvimento de memórias voltadas a servidores, data centers e aplicações de inteligência artificial.
  • Ainda assim, a operação amazonense demonstra que Manaus já participa de uma etapa dessa indústria e oferece um ponto de partida para discutir expansão, fornecedores, pesquisa e formação de profissionais.
  • Também em 30 de julho, o governo do Vietnã reuniu-se com representantes da SEMI Southeast Asia para discutir a aproximação do país com as mais de 3 mil empresas ligadas à entidade, a atração de investimentos e a formação de engenheiros.

Empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM). — Foto: Divulgação

Quase invisíveis para o consumidor, os semicondutores estão dentro de celulares, computadores, veículos, equipamentos médicos e máquinas industriais. Também sustentam os data centers que processam inteligência artificial. Por isso, a disputa pelos chips passou a envolver política industrial, financiamento e autonomia econômica.

Esse cenário parece distante de Manaus, mas não é. O Polo Industrial de Manaus (PIM) reúne fabricantes de celulares, televisores, computadores, motocicletas e outros equipamentos cada vez mais dependentes desses componentes. O desafio é transformar essa escala de produção em maior participação nas etapas tecnológicas da cadeia.

Um passo recente foi a regulamentação do Programa Brasil Semicondutores, o Brasil Semicon. O Decreto nº 13.065, publicado em 15 de julho, criou um conselho gestor e autorizou a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) no apoio à implantação, modernização e expansão de empreendimentos do setor. A política também busca integrar pesquisa, formação profissional, design, software e produção.

O Brasil está distante da escala alcançada pelos principais países asiáticos e dificilmente dominará, no curto prazo, todas as etapas da fabricação. Apesar disso, há espaço em segmentos como design, sensores, memórias, componentes de potência, testes, montagem, encapsulamento e integração de módulos.

É nesse ponto que o PIM pode encontrar uma posição mais realista. A região possui experiência consolidada em manufatura eletroeletrônica, automação e montagem de produtos complexos, além de uma demanda industrial concentrada por componentes. Mas ainda precisa ampliar a capacidade de desenvolver e fabricar parte da tecnologia incorporada aos bens que saem de suas linhas de produção.

A presença da Zilia Technologies oferece um exemplo dessa conexão. A empresa mantém em Manaus uma fábrica que produz cerca de 7 milhões de módulos de memória e dispositivos de armazenamento por ano. Já a unidade de Atibaia, no interior de São Paulo, concentra a produção anual de aproximadamente 150 milhões de chips.

O BNDES aprovou R$ 143,3 milhões para pesquisa, aquisição de equipamentos e modernização da operação da Zilia. Os recursos serão destinados principalmente à fábrica de Atibaia, incluindo máquinas de montagem, testes, manipulação e medição, além do desenvolvimento de memórias voltadas a servidores, data centers e aplicações de inteligência artificial.

Ainda assim, a operação amazonense demonstra que Manaus já participa de uma etapa dessa indústria e oferece um ponto de partida para discutir expansão, fornecedores, pesquisa e formação de profissionais.

Enquanto o Brasil organiza seus instrumentos de apoio, a China mostra a dimensão financeira dessa corrida. A fabricante de memórias ChangXin Memory Technologies (CXMT) captou US$ 8,6 bilhões em sua estreia na Bolsa de Xangai, em 27 de julho. Suas ações encerraram o primeiro dia com valorização de 466%. O volume demonstra como o mercado de capitais também passou a financiar projetos industriais considerados estratégicos.

Outra ação recente veio do Vietnã, país que também busca avançar da montagem de produtos eletrônicos para etapas de maior valor tecnológico.

Também em 30 de julho, o governo do Vietnã reuniu-se com representantes da SEMI Southeast Asia para discutir a aproximação do país com as mais de 3 mil empresas ligadas à entidade, a atração de investimentos e a formação de engenheiros. Sem anúncio de novos projetos, o encontro soma-se às iniciativas de países que buscam fortalecer sua posição na cadeia global de semicondutores por meio da articulação entre governo, indústria e qualificação profissional.

O Brasil Semicon, o financiamento público e a presença da Zilia criam uma base, mas não garantem resultados. O avanço dependerá de projetos capazes de conectar a política nacional às necessidades dos setores instalados no PIM.

A questão não é se Manaus conseguirá fabricar todos os tipos de chips. É se poderá aproveitar sua escala industrial para deixar de ser apenas consumidora desses componentes e assumir uma posição de maior valor tecnológico na cadeia.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

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