Resumo
- 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Em análise sobre a eficácia das políticas públicas e do arcabouço jurídico de prevenção ao fogo, o doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Antônio Norte, destaca que a fiscalização e a repressão estatal ainda tropeçam na identificação de quem realmente lucra com a destruição da floresta.
- Liam Cavalcante/Rede Amazônica O gargalo da investigação patrimonial De acordo com o especialista, o obstáculo para conter a fumaça de forma definitiva não reside na falta de decretos de proibição do uso do fogo ou no valor das sanções previstas na legislação, mas na dificuldade de produzir provas que conectem os focos de calor detectados por satélite aos verdadeiros tomadores de decisão.
- Veja registros Gestão de risco e articulação federativa A resposta do Poder Público, segundo o pesquisador, precisa migrar do combate reativo no auge da seca para uma política permanente de prevenção baseada em ciência e gestão territorial, atuando antes que a fumaça tome conta da capital e das cidades do interior.
- Conforme a análise, o fortalecimento de brigadas durante todo o ano, a criação de consórcios intermunicipais e o suporte financeiro e tecnológico do Estado e da União aos municípios remotos são medidas urgentes para descentralizar o combate e garantir que as leis ambientais deixem de ser apenas normas formais e se tornem instrumentos efetivos de proteção.
Densa fumaça volta a cobrir Manaus; alerta da Defesa Civil nos celulares recomenda que moradores saiam de casa com máscaras
Após Manaus amanhecer encoberta uma densa nuvem de fumaça trazida pelos incêndios florestais no interior do estado e na Região Metropolitana, pelo segundo dia consecutivo na sexta-feira (9), especialistas ouvidos pelo g1 alertam que o combate às queimadas no Amazonas atinge executores, mas poupa mandantes e financiadores.
♨️ A neblina cinzenta reduziu a visibilidade em vários pontos da capital, comprometeu a qualidade do ar, classificada como a pior do Brasil, e levou a Prefeitura de Manaus a declarar estado de atenção na cidade.
O cenário crítico, que afeta diretamente a saúde da população, acende o alerta para as limitações históricas nas ações de combate e prevenção aos incêndios florestais no Amazonas. Para além do combate ostensivo no campo durante o auge da estiagem, especialistas apontam que o nó central da crise ambiental está na impunidade da cadeia financeira do crime.
Em análise sobre a eficácia das políticas públicas e do arcabouço jurídico de prevenção ao fogo, o doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Antônio Norte, destaca que a fiscalização e a repressão estatal ainda tropeçam na identificação de quem realmente lucra com a destruição da floresta.
“Muitas vezes, a investigação alcança apenas o executor material, enquanto os mandantes, financiadores e beneficiários econômicos permanecem distantes da responsabilização” afirma Antônio Norte.
Incêndio afeta área de mata em Itacoatiara. — Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica
Incêndio afeta área de mata em Itacoatiara. — Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica
O gargalo da investigação patrimonial
De acordo com o especialista, o obstáculo para conter a fumaça de forma definitiva não reside na falta de decretos de proibição do uso do fogo ou no valor das sanções previstas na legislação, mas na dificuldade de produzir provas que conectem os focos de calor detectados por satélite aos verdadeiros tomadores de decisão.
Para romper a lógica de punir apenas o trabalhador na ponta e alcançar o topo da cadeia, Norte defende a integração sistemática entre dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Cadastro Ambiental Rural (CAR), registros imobiliários e investigações financeiras.
“A responsabilidade civil ambiental é objetiva, mas exige a demonstração do nexo causal. Já as responsabilidades administrativa e criminal dependem dos respectivos pressupostos legais, não sendo admissível presumir culpa ou autoria. É necessário alcançar toda a cadeia de responsabilidade, sem permitir que a fragmentação das investigações favoreça a impunidade”, explica.
Gestão de risco e articulação federativa
A resposta do Poder Público, segundo o pesquisador, precisa migrar do combate reativo no auge da seca para uma política permanente de prevenção baseada em ciência e gestão territorial, atuando antes que a fumaça tome conta da capital e das cidades do interior.
Norte ressalta ainda que a governança ambiental deve ser cooperativa, reunindo órgãos federais como Ibama e Prevfogo, secretarias estaduais, Defesa Civil e prefeituras, conforme prevê a Lei Complementar nº 140/2011.
“A competência administrativa não pode servir de justificativa para atrasos ou omissões. É fundamental estabelecer planos integrados de contingência e sistemas de alerta precoce. A resposta estatal deve começar diante do risco identificado, e não somente quando a fumaça já compromete a saúde da população”, reitera.
Conforme a análise, o fortalecimento de brigadas durante todo o ano, a criação de consórcios intermunicipais e o suporte financeiro e tecnológico do Estado e da União aos municípios remotos são medidas urgentes para descentralizar o combate e garantir que as leis ambientais deixem de ser apenas normas formais e se tornem instrumentos efetivos de proteção.
Bombeiros atuam em incêndio em zona rural de Itacoatiara. — Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica
Bombeiros atuam em incêndio em zona rural de Itacoatiara. — Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica
Qualidade do ar crítica e capital em alerta
A degradação do ar em Manaus atinge níveis severos. Na sexta-feira (9), sistemas de monitoramento ambiental apontaram índices extremamente elevados de poluição por material particulado, colocando a capital amazonense no topo do ranking de pior qualidade do ar do país.
Diante do agravamento das condições atmosféricas e do aumento de atendimentos por problemas respiratórios na rede pública de saúde, o município decretou estado de atenção, orientando a população a evitar atividades físicas ao ar livre, reforçar a hidratação e utilizar máscaras de proteção individual.
Fumaça reduz visibilidade e faz Manaus ‘sumir’ na Ponte Rio Negro