Defensores públicos denunciam morte de 30 pacientes com Covid-19 e síndromes respiratórias no interior do AM

Defensoria Pública faz apelo por pacientes do interior do Amazonas

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Defensores públicos que atuam em municípios do interior do Amazonas informaram que, entre os dias 15 e 19 de janeiro, foram registradas pelo menos 30 mortes de pacientes com Covid-19 e síndromes respiratórias. As vítimas teriam morrido por falta de oxigênio ou falta de remoção para cidades com condições de atendê-las.

Ao todo, de acordo com a Defensoria Pública, as mortes ocorrem pelo descaso dos governos estadual e federal, que até agora não apresentaram um plano efetivo de remoção de pacientes que vivem fora da capital.

Em Coari, foram sete mortes somente nesta segunda-feira (18). Manacapuru registrou 11 mortes. Em Parintins, duas pessoas morreram à espera de remoção. Tefé contabilizou seis mortes por tempo de espera de remoção. Em Itacoatiara, foram duas mortes especificamente por falta de oxigênio e três mortes de pacientes que estavam aguardando leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Maués registrou uma morte por ausência de remoção. As famílias de alguns desses pacientes tinham em mãos decisões judiciais favoráveis à remoção.

Conselho Federal de Enfermagem faz vistoria em hospitais do Amazonas

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Parintins

A defensora pública Gabriela Gonçalves, que atua no Polo da Defensoria Pública do Estado (DPE-AM) no Baixo Amazonas, com sede em Parintins (AM), contou que os pacientes graves do interior do Amazonas não possuem suporte intensivo. A Defensoria ajuizou uma ação coletiva, junto com o Ministério Público, para cobrar o plano de evacuação e também um plano de manutenção do abastecimento de oxigênio.

Parintins tem 7.706 casos confirmados e 175 mortes pela doença.

Tefé

Em Tefé (AM), o órgão contabilizou que seis pessoas diagnosticadas com Covid-19 morreram em quatro dias, aguardando transferências aéreas, entre 13 e 17 de janeiro. A cidade possui 5.667 casos confirmados de Covid-19 e 119 óbitos registrados. O município é o quinto com mais mortes no interior.

Segundo a defensora Thaís Corrêa, do Polo do Médio Solimões, com sede em Tefé, dos seis óbitos registrados no hospital na fila de espera para a transferência aérea, cinco pacientes constavam em uma ação que pedia celeridade na Justiça.

“O paciente do interior, ele sofre com duas filas. Ele sofre com a espera de leitos em Manaus e com a espera da UTI aérea, que, muitas vezes, não chega. Temos dificuldade de acompanhar essa fila. Não sabemos para onde esse avião está indo e como estão ocorrendo essas transferências. A situação está muito complicada”, disse.

Conforme a defensora, a situação preocupa, pois há demora nas remoções de pacientes para serem atendidos na capital e não há um plano emergencial de evacuação. Nesta quarta-feira (20), o município tinha três pessoas em estado grave, aguardando transferência aérea solicitada à Justiça.

Pelo plano de contingenciamento Estadual da Covid-19, Tefé é a cidade que possui o hospital referência para atender seis cidades da região chamada médio Solimões. Nesse caso, além de atender toda a população do município, em torno de 60 mil, o local também recebe outra população dos entornos. Segundo a defensora, esse atendimento já acontecia antes da pandemia, mas ficou mais acentuado por conta dos casos do novo coronavírus.

De acordo com o plano de contingenciamento, sempre que o paciente do interior precisa de um tratamento mais efetivo, ele precisa ser transferido para Manaus. “Com o caos que se instalou em Manaus, principalmente pela alta ocupações de leitos e falta de insumos, isso começou a travar as transferências aqui no interior. E, não foram abertos leitos. Pelo o que a gente tem entendido, não teve um plano emergencial para que continuasse efetuando essas transferências de uma forma célere, que é o que exige a situação da Covid”, contou.

Alerta para falta de insumos

A defensora Thaís Corrêa ressaltou que, sobre os insumos e oxigênio de Tefé, o órgão está atuando extrajudicialmente e acompanhando a aquisição pelo município e fornecimento pelo Estado. “Estamos cobrando que eles se articulem para evitar o desabastecimento. Está faltando celeridade na manutenção do estoque”, contou

O defensor Lucas Matos relatou que, na região de Tefé, já estão faltando insumos básicos. Ainda de acordo com o defensor, pelos cálculos feitos pela equipe da defensoria, o oxigênio que está em estoque durará somente mais alguns dias.

“Como não está havendo esse deslocamento, em razão da superlotação dos leitos em Manaus, nós ingressamos com uma ação civil pública para remover os pacientes que estavam aguardando na fila de transferência. Mesmo com uma decisão judicial favorável, nós chegamos a ver alguns assistidos morrerem, sem que essa decisão tivesse sido cumprida”, afirmou.

De acordo com o defensor, o hospital tem um tanque de oxigênio que não é abastecido desde a semana passada. O hospital está vivendo de doações de cilindros – alguns poucos cilindros que são enviados pelo Estado. “Porém, estão mandando também por conta de uma ação civil pública ajuizada pela Defensoria junto com o Ministério Público”, explica.

Ainda assim, afirma o defensor, o quantitativo de oxigênio que chega ao município é insuficiente e há um número elevado de óbitos todos os dias.

Posicionamento da Secretaria da Saúde

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde informou que o governo está empreendendo todos os esforços, com auxílio do Governo Federal, para equacionar as dificuldades encontradas na logística de abastecimento de oxigênio nas unidades de saúde da rede pública de saúde da capital e interior. A nota informa que as equipes monitoram os níveis de abastecimento em todas as unidades para suprir de imediato aquelas que entram em estado mais crítico. No caso do interior, a logística conta com o envio diário de cilindros de oxigênio com o uso de aviões, helicópteros e lanchas. A nota informa que os sistemas de saúde dos municípios de Coari, Parintins e Tefé são independentes, sendo gestão plena das Prefeituras Municipais, mas o estado auxilia a administração local.

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