De poucos recursos à alta tecnologia: veteranos das alegorias revelam o que mudou no Festival de Parintins em 30 anos

Resumo

  • Considerado um dos principais patrimônios culturais do Brasil, o Festival de Parintins celebra a cultura amazônica e a rivalidade centenária entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido.
  • O g1 conversou com dois artistas veteranos, que vivenciaram a chamada “era de ouro” do festival, na década de 1990, para entender o que mudou na confecção das alegorias e na projeção da disputa entre os bois.
  • Veja fotos de artesões e alegorias no Festival de Parintins de 1998 1/4 Artesão do Boi Garantido trabalha em alegoria para o Festival de Parintins na década de 1990 — Foto.
  • Nildo iniciou a trajetória no boi-bumbá em 1993 e acompanhou de perto a transformação técnica das alegorias, que deixaram de ser estruturas simples para se tornarem os gigantescos e tecnológicos módulos que surpreendem o público no Bumbódromo.

Artistas dos bois Garanttido e Caprichoso — Foto: Reprodução

O Festival Folclórico de Parintins se transformou, ao longo de quase seis décadas, em um dos maiores espetáculos a céu aberto do mundo. Mas para quem está nos bastidores, a grandiosidade de hoje carrega a memória de um tempo em que a festa se sustentava, principalmente, pelo amor e pela doação.

Considerado um dos principais patrimônios culturais do Brasil, o Festival de Parintins celebra a cultura amazônica e a rivalidade centenária entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido. Em 2026, a tradicional disputa na ilha situada no interior do Amazonas acontece nos dias 26, 27 e 28 de junho.

O g1 conversou com dois artistas veteranos, que vivenciaram a chamada “era de ouro” do festival, na década de 1990, para entender o que mudou na confecção das alegorias e na projeção da disputa entre os bois.

Naquela época, a explosão das toadas em âmbito nacional colocou o boi-bumbá nos holofotes do país. Nomes como Arlindo Júnior, Klinger Araújo e David Assayag se apresentaram em programas de televisão e levaram as toadas para todo o Brasil. Nos galpões, contudo, a realidade era de superação e poucos recursos financeiros.

Veja fotos de artesões e alegorias no Festival de Parintins de 1998

Artesão do Boi Garantido trabalha em alegoria para o Festival de Parintins na década de 1990 — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Trabalhador realiza ajustes no galpão do Boi Caprichoso em 1998. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Alegoria apresentada pelo Boi Caprichoso no Festival de Parintins de 1998. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Módulos apresentados pelo Boi Garantido no Festival de Parintins de 1998. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

1/4
Artesão do Boi Garantido trabalha em alegoria para o Festival de Parintins na década de 1990 — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Artesão do Boi Garantido trabalha em alegoria para o Festival de Parintins na década de 1990 — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Trabalhador realiza ajustes no galpão do Boi Caprichoso em 1998. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Alegoria apresentada pelo Boi Caprichoso no Festival de Parintins de 1998. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Módulos apresentados pelo Boi Garantido no Festival de Parintins de 1998. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Trabalho por amor e o choro na saída do galpão

Aos 64 anos de idade, Cirene Maria Barros Penha soma 32 anos de dedicação ao boi-bumbá. Atualmente no Garantido, onde atua há 15 anos fazendo a decoração de alegorias, ela traz na bagagem a experiência de ter sido a primeira cunhã-poranga do Caprichoso, quando o posto ainda era conhecido como “rainha das tribos”.

Cirene relembra com nostalgia as dificuldades e o sentimento que movia os artistas nos anos 90, período em que os grandes patrocinadores ainda não ditavam o ritmo da festa.

“A gente começou e não tinha tanto patrocinador. Então a gente trabalhava mesmo por amor, se doava. Eu saía da minha casa às 7h e só voltava, às vezes, no outro dia. Tínhamos que apresentar as coisas e não havia muito recurso”, relembra a artista.

Mesmo com a evolução tecnológica e financeira do festival, a emoção de colocar o boi na arena permanece intacta.

“Quando vejo o trabalho saindo do galpão, já quero chorar. Quando a gente vê o trabalho concluído, se sente de alma lavada”, conta Sirene, que também trabalha há 12 anos no carnaval de São Paulo, pela escola Águia de Ouro.

Para Cirene, figuras como o “Pop da Selva” Arlindo Júnior e o artista plástico Juarez Lima deixaram legados eternos. Ela destaca ainda que o festival vai muito além do profano, estando profundamente ligado à religiosidade local.

“Toda Alvorada eu tenho que entregar a promessa. Tenho que chegar na catedral com o boi e ajoelhar lá junto com ele. Não é uma festa profana, é o dom que Deus deu para a gente”, afirma.

🔎 CONTEXTO: A Alvorada do Garantido é uma tradicional festa realizada em Parintins na madrugada de 1º de maio. O evento reúne milhares de torcedores do Boi Garantido em uma caminhada pelas ruas da cidade, com apresentações de toadas, batucada e celebrações que seguem até o amanhecer.

Cirene Maria Barros, artista do Boi Garantido — Foto: Lucas Macedo/g1 AM

Das ferramentas simples ao ‘padrão Caprichoso’

Do outro lado de Parintins, no reduto azul e branco, o artista plástico Nildo Costa, de 52 anos, também testemunha essa passagem de tempo. Com 32 anos de experiência no Boi Caprichoso, ele é hoje um dos nomes mais antigos em atividade no setor de módulos alegóricos.

Nildo iniciou a trajetória no boi-bumbá em 1993 e acompanhou de perto a transformação técnica das alegorias, que deixaram de ser estruturas simples para se tornarem os gigantescos e tecnológicos módulos que surpreendem o público no Bumbódromo.

O artista diz que, com o passar dos anos, o Caprichoso ficou conhecido pela grandiosidade das alegorias. Ele acredita que a evolução da festa ajudou a consolidar essa identidade visual e cênica inconfundível.

“O Caprichoso tem uma palavra que é muito bonita: padrão. Padrão Caprichoso. Isso já é uma identidade nossa. O público pode esperar um espetáculo”, projeta o artista, demonstrando otimismo e confiança para a disputa deste ano.

Nildo Costa, artista do Boi Caprichoso — Foto: Lucas Macedo/g1 AM

Últimos ajustes

A concentração do Bumbódromo virou um grande ateliê a céu aberto. A menos de uma semana do 59º Festival Folclórico de Parintins, equipes dos bois Caprichoso e Garantido aceleram o ritmo para finalizar as alegorias que prometem surpreender o público nas três noites de apresentações.

Após meses de trabalho nos galpões, as estruturas gigantes ganham forma ao lado da arena. Pintura, ajustes, iluminação e efeitos especiais ocupam centenas de profissionais, que vivem a mistura de ansiedade e expectativa pelo início do festival.

LEIA TAMBÉM:

Alegorias de Caprichoso e Garantido entram em reta final na concentração do Bumbódromo

Alegorias de Caprichoso e Garantido entram em reta final na concentração do Bumbódromo

Deixe um comentário