Pesquisa revela que desigualdades sociais contribuíram para o aumento explosivo de mortes em Manaus

Estudo aponta que a gravidade da epidemia de Covid-19 em Manaus e o elevado número de mortalidade têm suas raízes na grande desigualdade social, fraca efetividade de políticas públicas e fragilidade dos serviços de saúde na cidade.

Para a investigação foram usados dados de mortalidade oriundos da Central de Informações do Registro Civil (CRC) Nacional e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), durante a 11ª e a 16ª semana epidemiológica (período de 15 de março a 25 de abril de 2020), revela o pesquisador Jesem Orellana, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia).

Ele adianta que apesar das incertezas sobre mortalidade específica por Covid-19 é possível estimar o impacto da epidemia indiretamente, mediante o indicador de mortalidade geral, que avalia o excesso de óbitos ou o número de mortes não esperadas na população.

Jesem Orellana

“Normalmente, o indicador de mortalidade geral, varia pouco ou quase nada em curto espaço de tempo. Somente em situações excepcionais como desastres naturais, guerras ou de crise sociossanitária pode haver repentina e sustentada variação no padrão de mortalidade da população. Portanto, em tempos de ampla disseminação do novo coronavírus, especialmente em contexto sociossanitário desfavorável, espera-se não só maciço contágio e adoecimento, como também elevado e atípico número de óbitos”, comenta o pesquisador.

Além da Covid-19, outras possíveis causas de mortes foram consideradas pela CRC, como síndrome respiratória aguda grave (SRAG); pneumonia; septicemia; e insuficiência respiratória. Os óbitos não classificados em nenhuma dessas condições foram incluídos na categoria “demais causas”. Por fim, as mortes “indeterminadas” (causas de mortes ligadas a doenças respiratórias, mas não conclusivas) que representaram menos de 1% da amostra avaliada e não foram apresentadas separadamente.

A análise mostrou uma similaridade entre o total de óbitos registrados em 2019 e 2018, ao longo das semanas selecionadas em março e abril. Porém, ao se fazer uma comparação entre o total de óbitos de 2020 e 2019, observou-se um excesso de mortalidade, a partir da 14ª semana epidemiológica de 2020 e uma explosão na 16ª semana na qual o número de óbitos foi 200% maior do que o observado em 2019.

O expressivo aumento de mortes a partir da 14ª semana, deu-se aproximadamente 15 dias após a confirmação dos 30 primeiros casos de Covid-19 em Manaus. Já o alarmante e inédito aumento do número de mortes na 16ª semana, coincidiu com o colapso da rede pública hospitalar, gerando um aumento três vezes maior de sepultamentos diários.

Nesse período, as mortes em casa e em via pública também aumentaram, bem como os casos de Covid-19 nos municípios vizinhos. Esse conjunto de acontecimentos resultou, provavelmente, de uma grande aceleração da epidemia em Manaus nas semanas anteriores, contribuindo para a consolidação de uma crise sociossanitária sem precedentes.

“Variações no indicador de mortalidade geral, em cenário de crise sociossanitária, não estão restritas  a países de baixa e média renda, pois um número excessivo de mortes, também foi observado em Nova York e outras cidades da Europa, especialmente na Itália e Espanha, reforçando que a subnotificação na mortalidade específica por Covid-19 tem ocorrido nos mais diferentes contextos e regiões do planeta”, observa o pesquisador.

O estudo também aponta ainda que em Manaus quase 70% das mortes ocorreram em pessoas com 60 anos ou mais, um dado semelhante aos mostrados em estudos realizados em outros países, e que confirmam que nesse segmento populacional, as comorbidades têm sido associadas com um prognóstico pior em casos de internação por Covid-19.

Outro dado que corrobora com outros estudos, diz respeito aos diferenciais por sexo, com risco de mortalidade maior entre os homens, e um aumento explosivo de mortalidade por problemas respiratórios, que são complicações comuns da Covid-19.

Para o pesquisador, “reforços devem ser envidados rapidamente por gestores das três esferas de governo de modo a conter ou minorar o efeito deletério da Covid-19 em Manaus, sobretudo em áreas mais precárias, onde o impacto da pandemia sobre a mortalidade tende a ser mais acentuado”, conclui Orellana.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Foto: Eduardo Gomes-ILMD/Fiocruz Amazônia

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