Centro especializado em quelônios do Inpa mostra as últimas descobertas nos estudos sobre a espécie

Com a presença maciça de estudiosos da área pesquisadores de diferentes instituições mostram os últimos avanços nos estudos sobre quelônios de água doce

Por Luciete Pedrosa – Ascom Inpa

A descrição da arquitetura do ninho de Rhinoclemmy punctularia, conhecida como perema, a única espécie desse gênero e a única da família dos geomidídeos na Amazônia, que após 45 dias registrou uma segunda desova com dois ovos, categorizada como “desova múltipla”, ainda não descrita na ciência para este gênero. Esta foi uma das descobertas do Centro de Estudos de Quelônios da Amazônia (Cequa) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), mostrada no ciclo de palestras do Instituto.     

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Com a presença maciça de estudiosos da área o ciclo de palestras foi aberta na manhã desta segunda-feira (22), no Auditório do Cequa/Inpa, onde pesquisadores de diferentes instituições mostraram os últimos avanços nos estudos sobre quelônios de água doce.  

“Podemos fazer no laboratório o que não se pode fazer na natureza e com custo mais baixo, como controlar temperatura, luz e a dieta dos animais”, disse o pesquisador do Inpa, o americano Richard Vogt, que há 27 anos trabalha com a ecologia e conservação de quelônios, ao falar sobre a importância dos experimentos em laboratório no Cequa. Segundo ele, um desses experimentos é a incubação para determinar o sexo de cada espécie. “Ainda faltam experimentos, por exemplo, em espécies como o mata-mata, um cágado de água doce pertencente à família Chelidae”, disse.   

O pesquisador e bolsista no Programa de Capacitação Institucional (PCI/Inpa) Fabio Cunha destacou as últimas descobertas no Cequa e que resultou na publicação de um artigo na revista científica Herpetologoical Review. “A primeira desova aconteceu no dia 8 de julho com apenas um ovo e 45 dias depois foi registrada uma segunda desova com dois ovos que é categorizada como “desova múltipla” e que ainda não foi descrita para este gênero”, conta o pesquisador. 

Segundo ele, sabe-se que este gênero normalmente faz uma desova com um ou dois ovos, mas somente uma vez no ano, e num período tão curto conseguiu reproduzir novos ovos dentro do seu sistema reprodutor. “Isso é um ganho muito importante para a ciência porque mostra que as espécies da Amazônia têm esta estratégia de fazer a desova múltipla”, destaca Cunha.

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Outra descoberta importante mostrada por Cunha realizada no Cequa é a indução de ovopostura da espécie Mesoclemmys raniceps, que até o momento ainda não se tinha descrito na ciência a morfometria e a morfologia dos filhotes na certeza taxonômica. “Quando fizemos a indução tínhamos certeza  que aquele filhote era daquela espécie porque forçamos a indução e fizemos o acompanhamento”, diz o pesquisador ao acrescentar que chegou-se à conclusão de que o período de incubação dessa espécie é de 249 dias.

Na opinião do pesquisador, acompanhar o desenvolvimento, o comportamento e a reprodução no ambiente de cativeiro, onde é simulado o ambiente da natureza, é extremante importante porque a partir daí se pode planejar a ida ao campo e acompanhar in loco o comportamento da espécie e fornecer subsídios para ajudar os tomadores de decisão na conservação e manejo dos animais.

O ciclo de palestras foi idealizado pelo Cequa para reunir especialistas em comemoração ao Dia Mundial da Tartaruga (23 de maio) e para refletir sobre a necessidade de conservação desses animais na natureza. Na ocasião, Vogt anunciou a realização de um simpósio sobre tartarugas, que deverá acontecer de 14 a 18 agosto, no Auditório do Bosque da Ciência do Inpa.

Pela manhã, os especialistas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Paulo Cesar de Andrade e Marcela Magalhães falaram sobre o projeto pé-de-pincha e o desenvolvimento embrionário de quelônios. O pesquisador do Instituto Mamirauá Augusto Terán falou sobre a experiência de preservação do Podocnemis na RDS Mamirauá.

O ciclo de palestras também contou com a participação da pesquisadora da Ufam Maria das Neves -Estrutura genética da população de Podocnemis sextuberculata (Testudines, Podocnemididade); do professor Raymundo Brilhante da Secretaria Municipal de Educação (Semed) - Processo de musicalização infantil utilizando os quelônios da Amazônia; e da pesquisadora Camila Ferrara da WCS com o trabalho Comunicação acústica em quelônios aquáticos.    

Cequa

O Cequa foi inaugurado há dois anos e é um centro de estudos e exposição de quelônios vivos da Amazônia. Realiza trabalhos sobre o comportamento alimentar e reprodutivo, regulação de temperatura por ninho e vocalização de tartarugas (bioacústica). Abriga cerca de 130 aniamis de 16 espécies.

Tem por finalidade a promoção, por meio de ações conjuntas de educação ambiental e de pesquisa, do aumento da valorização e da consciência ecológica dos amazonenses frente à dificuldade para a conservação de quelônios, destacando-se, principalmente, o consumo, o comércio ilegal e a importância desses vertebrados aquáticos para o equilíbrio ambiental na Amazônia.

O espaço funciona dentro do Bosque da Ciência do Inpa e pode ser visitado de terça a sexta-feira, das 8h às 17h, com intervalo para almoço das 12h às 14h.

Inpa capacita produtoras sobre alimentação integral e nutrição na Semana de Orgânicos

A proposta é oferecer informações às agricultoras quanto aos produtos orgânicos para melhorar a possibilidade de renda deles

 

Por Karem Canto – Ascom Inpa

Foto: Luciete Pedrosa

 

“Fazer a feira” levando para casa alimentos de qualidade, livres de agrotóxicos, com preço justo e dentro do conceito de sustentabilidade ainda é uma tarefa difícil para milhares de consumidores brasileiros. Para promover a importância da alimentação saudável, uma série de atividades será realizada a partir deste domingo (27) dentro da Semana Nacional de Alimentos Orgânicos, que segue até o dia 04 de junho, em diversas partes de Manaus. 

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) participará do evento com a “Oficina teórica e prática de Alimentação integral e nutrição” para 25 produtoras das Organizações de Controle Social (OCS), na próxima segunda-feira (29), no Laboratório de Alimentos e Nutrição (LAN/Inpa), em período integral.

“Nosso objetivo é ajudar a melhorar a renda das agricultoras”, diz a pesquisadora do Inpa e responsável pela oficina, a nutricionista Dionísia Nagahama.

A Semana Nacional de Alimentos Orgânicos é um evento anual realizado simultaneamente em todos os estados do país e no Distrito Federal. A proposta é oferecer informações aos consumidores quanto aos produtos orgânicos.

 

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Nagahama conta que durante a oficina os produtos orgânicos serão utilizados de maneira completa e integral possível, desde as sementes até as cascas. “O Laboratório de Alimentos e Nutrição fará essa capacitação de boas práticas e de processamento de alimentos”, diz.

A pesquisadora revela que os produtos elaborados na oficina serão levados para degustação na Semana Nacional de Alimentos Orgânicos, que acontecerá na sede do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), localizado na Rua Maceió, 460 – Adrianópolis (zona Centro-Sul de Manaus).

“Cozinheiro na Feira”

Na programação da Semana também consta o evento “Cozinheiros na Feira”, quando chefs de cozinha, alunos de nutrição e gastronomia de diversas faculdades e do movimento Slow Food de Manaus vão preparar quitutes para degustação usando produtos da Feira de orgânicos.

Serão dadas dicas de receitas de pratos e reaproveitamento dos alimentos, que como são orgânicos são saudáveis, seguros e com preços justos, segundo a pesquisadora.  O evento com direito à aula show de gastronomia acontecerá no sábado (3), das 7 às 11h, na Feira de Alimentos Orgânicos do Mapa (Galpão SFA/AM), que fica na Rua Maceió, 460, Adrianópolis.

 “Nossa ideia é mostrar às pessoas que estão fazendo a feira para que saibam o que podem fazer com aqueles vegetais ou frutas, que muitas vezes, elas nem sabem o que são, tais como o cariru, a bertalha, o coração de banana, o cubiu - que é riquíssimo em fibras e vitamina C, e por aí vai”, explica a pesquisadora.

A Aula show será realizada a cada meia em meia hora, quando serão preparados sucos verdes, doces ou outro preparo rápido, nutritivo e orgânico. Será um momento dedicado ao público presente para que aprenda a execução dos preparos e conheça os benefícios desses alimentos.

Pesquisadores devem estar atentos aos preceitos da nova Lei da Biodiversidade

A nova Lei da Biodiversidade, Lei nº 13.123/2015, regulamentada pelo Decreto nº 8.772/2016, trouxe importantes mudanças para as pesquisas com o patrimônio genético brasileiro, bem como para o desenvolvimento de produtos como nossa biodiversidade. Agora, para realizar pesquisas com a biodiversidade é necessário realizar cadastro eletrônico no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético (SISGen).

Para falar sobre “Nova legislação de acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado e seu impacto nas pesquisas”, esteve em Manaus, na última sexta-feira,19/5, na sede do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), a assessora da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e ex-integrante do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético do Ministério do Meio Ambiente (CGEN/MMA), Manuela da Silva.

O Brasil é pioneiro na implementação de uma lei de acesso ao patrimônio genético, ao conhecimento tradicional associado e à repartição de benefícios. Em 2001, com a  MP 2186-16, de 2001, alinhada à Convenção sobre Diversidade Biológica, buscou, de certa forma, evitar a biopirataria e garantir a repartição de benefícios oriundos da biodiversidade. Agora, com a nova lei, o procedimento concentra-se basicamente no cadastro durante a fase da pesquisa e desenvolvimento tecnológico e notificação antes do início da exploração econômica de um produto acabado ou material reprodutivo oriundos do acesso ao patrimônio genético do país e do acesso do conhecimento tradicional associado.

Manuela da Silva alertou os pesquisadores sobre suas responsabilidades em relação ao cadastro, que tanto pode ser feito por pessoa física ou jurídica, privada ou pública. Segundo ela, as Unidades da Fiocruz devem realizar reuniões de projetos para estabelecer a condução desses cadastros.

Pela nova Lei foi criado no âmbito do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGen, e com este a criação de câmaras temáticas e setoriais, dentre essas a Câmara Setorial Acadêmica. As câmaras devem ter a participação paritária do Governo e da sociedade civil, representada pelos setores empresarial, acadêmico e representantes das populações indígenas, comunidades tradicionais e agricultores tradicionais, para subsidiar as decisões do plenário.

Para saber mais sobre o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado clique na página da Fiocruz.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Foto: Marlúcia Seixas

Editora Rede Unida lança livros sobre educação e práticas de saúde na Amazônia

Editora Rede Unida lança três livros, sendo dois da série Políticas e cuidados em saúde (volumes 1 e 2) e um da série Saúde & Amazônia (Volume 2). Os dois primeiros são produções compartilhadas da pesquisa “Rede de Avaliação Compartilhada (RAC) / Observatório Nacional da Produção de Cuidado em Diferentes Modalidades à Luz do Processo de Implantação das Redes Temáticas de Atenção à saúde no Sistema Único de Saúde: avalia quem pede, quem faz e quem usa”. Já o Livro “Educação e práticas de saúde na Amazônia: Tecendo redes de cuidado”, fruto de Trabalhos de conclusão de curso, residência, dissertações de mestrado e teses de doutorado, traz a discussão sobre prática de cuidados com a saúde realizadas nos Estados do Amazonas e Pará.

Os resultados das pesquisas desenvolvidas em municípios do Amazonas, formam ferramenta para o desenvolvimento das publicações. “Nós acompanhamos e analisamos várias mulheres, usuárias da rede de Saúde, buscando o cuidado pessoal, no período de gravidez, e acompanhamos parteiras, analisando os seus modos de cuidar das mulheres em período de gestação”, diz a pesquisadora e uma das autoras dos capítulos, Ângela Carla Schiffler.

A pesquisa foi coordenada nacionalmente pelo Dr. Emerson Merhy, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas teve o envolvimento dos grupos locais em Estados e municípios. No Amazonas, foi formado um grupo de pesquisadores da Rede de Avaliação Compartilhada (RAC), que pesquisou três cenários: Estratégia da Saúde da Família em Manaus, Unidade Básica de Saúde Fluvial, no município de Borba, e as parteiras do município de Manaus e de Itacoatiara.

Durante o evento, os participantes da pesquisa falaram de suas experiências ao longo dos trabalhos e agradeceram às pessoas que colaboraram com as atividades. “A pesquisa avalia quem pede, isto é, o gestor; quem faz, ou seja, o profissional e quem usa, isto é, o usuário. Então, essas pessoas possuem uma perspectiva distinta e temos de olhar os três”, diz Schiffler.

Entre os convidados, estava a agente de saúde, parteira e moradora da comunidade Vila de Lindoia, em Itacoatiara (176 quilômetros de Manaus), Nazaré Amaral, que contribuiu para o trabalho dos pesquisadores. “Ser parteira é um dom e queremos que o trabalho das parteiras seja divulgado, conhecido por outras pessoas. Nós ajudamos a trazer vidas ao mundo e contribuímos para a saúde da mulher”, concluiu.

Os livros intitulados “Avaliação Compartilhada do cuidado em saúde: surpreendendo o instituído nas redes”, volume 1 e volume 2, estão disponíveis na Biblioteca Digital da Editora da Rede Unida.

Exposição ‘Corpo, Saúde e Ciência: o Museu da Patologia do Instituto Oswaldo Cruz’ em ambiente virtual

Peças anatômicas, objetos e conteúdo de cunho histórico-científicos que compõem o acervo do Museu da Patologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) agora estão acessíveis a todos com apenas um clique. Lançado nesta sexta-feira, 19/05, durante sessão do Centro de Estudos do IOC, o ambiente virtual retrata a exposição ‘Corpo, Saúde e Ciência: o Museu da Patologia do Instituto Oswaldo Cruz’, que expõe itens e oferece informações referentes a três Coleções Biológicas mantidas pela Unidade: a Coleção da Seção de Anatomia Patológica, criada por Oswaldo Cruz em 1903; a Coleção de Febre Amarela (1930 – 1970), que registra a história das epidemias da doença no Brasil; e a Coleção do Departamento de Patologia, que teve início em 1984, composta por material biológico e documental a partir de amostras humanas e animais.

:: Realize agora um passeio online pela Exposição

O evento integrou a programação da 15ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). O ambiente virtual é uma realização do Laboratório de Patologia do IOC em parceria com a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Clique aqui e navegue por anos de história da ciência e da saúde.

“Vamos levar os visitantes a uma viagem rumo ao conhecimento da patologia, explorando contextos históricos, científicos e tecnológicos. Pretendemos ampliar o acesso de estudantes, pesquisadores e demais interessados na área a assuntos de ciência e saúde, oferecendo informações precisas e de qualidade”, destaca Barbara Cristina Dias, do Laboratório de Patologia do IOC, curadora da mostra juntamente com Marcelo Pelajo Machado, chefe do Laboratório, e Pedro Paulo Soares, da COC.

Barbara explica que a visita virtual tem como referência a exposição ‘Corpo, Saúde e Ciência’, realizada em 2013, no Castelo da Fiocruz. “A ideia de possibilitar um passeio online surgiu a partir da demanda do público. A partir do empenho de uma grande equipe conseguimos tornar a exposição permanente e acessível a todos, sejam moradores do Rio, de outras cidades, estados e até países”, comemorou. O projeto conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

A navegação é dividida em três módulos temáticos. O primeiro reúne informações sobre as primeiras descobertas da anatomia e destaca curiosidades, em especial a relação entre corpo, ciência e arte – nos séculos XV e XVI era comum que anatomistas também fossem pintores, o que contribuiu para que a tentativa de representação anatômica ganhasse inspirações artísticas. No segundo, é traçado um panorama do Museu da Patologia, com destaque aos renomados especialistas que contribuíram para a construção do espaço, como Gaspar de Oliveira Vianna, Carlos Burle de Figueiredo e Emmanuel Dias. Esta etapa também ressalta a importância das atividades atuais de preservação do patrimônio, pesquisa, desenvolvimento tecnológico, ensino e divulgação científica. O último módulo traz uma breve passagem sobre os primeiros passos da anatomia no Brasil, bem como da histologia patológica, que se desenvolveu, inicialmente, relacionada à atuação da saúde pública diante das doenças parasitárias e infecciosas enfrentadas no país.

Multimídia
No tour virtual, a função do guia fica a cargo do pesquisador Marcelo Pelajo. Por meio de vídeos explicativos o material aborda, por exemplo, o processo de digitalização das lâminas histológicas, que amplifica a consulta ao acervo por pesquisadores brasileiros e estrangeiros; a evolução da tecnologia de análise e armazenamento do material; a descrição de peças anatômicas de pulmões, cérebro, artérias, rins e de fragmentos representativos de outros órgãos que compõem o museu. O visitante virtual também tem acesso a uma série de arquivos complementares à mostra, como artigos e textos sobre anatomia, produção da vacina contra a febre amarela, trajetória de Rocha Lima e teoria da história celular. Confira aqui.

IOC/Fiocruz, por Lucas Rocha
Foto: José de Carvalho Filho

Curso na floresta exercita criatividade de alunos no fazer e divulgar pesquisas sobre insetos

Sem auxílio tecnológico e ‘forçado’ a trabalhar na Reserva Ducke com um assunto diferente de sua experiência prévia, o estudante de Mestrado e Doutorado é levado a desenvolver um projeto de pesquisa que terá como desdobramento um artigo científico, voltado para a academia, e um texto de divulgação científica, com foco na população

 

Por Luciete Pedrosa – Ascom Inpa

Fotos: Acervo pesquisador

 

Sair do ambiente de sala de aula para uma imersão de cinco dias em plena floresta, na Reserva Florestal Adolpho Ducke (Km 26 da AM-010), para despertar a curiosidade científica e a capacidade individual de fazer pesquisas. Esta é a proposta da disciplina prática Entomologia Geral do curso de mestrado e doutorado em Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC).

A disciplina é ministrada desde 1988 com o objetivo de ensinar os diferentes métodos de coletas, identificar e conservar insetos. Este ano, 15 alunos dessa matéria foram ao campo desprovidos de tecnologias e equipamentos modernos (internet, celular, TV). Eles precisaram se valer de uma única “arma” - a criatividade.

 

Turma entomologia5 Foto Acervo José Albertino Rafael Cópia

 

Durante a disciplina, os alunos escolhem um projeto que queriam desenvolver, denominado “projeto de um dia”, no qual elaboram um artigo científico e um texto de divulgação científica, que possui uma linguagem mais simples e acessível à população.

A mestranda Ana Flavia, que veio de Imperatriz (Maranhão), conta sua experiência durante a aula prática. “Saímos da sala de aula e fomos para o campo aprender os métodos de coletas e conhecer os vários tipos de inseto. Foi bem intenso, mas muito gratificante. Foi ‘top’!”. 

Para o professor da turma, o pesquisador José Albertino Rafael, a disciplina é levada para o campo para que seja, essencialmente, prática e fuja do dia a dia do laboratório. A parte prática aconteceu de 3 a 8 de maio, prosseguindo com a parte laboratorial até esta sexta-feira (19).

“No campo, incentivamos para que o aluno interaja com o ambiente, sentindo todas as possibilidades que existem para que ele desenvolva sua pesquisa e tenha uma percepção do que é fazer pesquisa”, diz o entomólogo ao acrescentar que uma das coisas que mais gosta da disciplina é incentivar o aluno a desenvolver o “Projeto de um dia”.

José Albertino explica que nesta atividade, cada aluno cria algo inédito para si, porque é forçado a trabalhar com um assunto diferente de sua experiência prévia. O aluno tem que utilizar de sua capacidade de observação pessoal, sem estar orientado ou dito por um pesquisador “faça isso, faça aquilo”.

 

Turma entomologia33 Foto Acervo José Albertino Rafael

 

“Os professores e monitores não podem dizer aos alunos o que fazer. É o aluno que tem que sair de lá orgulhoso, dizendo: eu fiz isso, eu criei e eu obtive os resultados”, destaca Albertino. “É uma prática simples, mas que mexe com a cabeça do aluno para sempre”, revela.

Para o pesquisador, isso demonstra para uns a capacidade de se inserir como um pesquisador, já para outros, mostra que não terão essa mesma capacidade, mas que poderão ser bons técnicos ou excelentes professores.

Segundo o pesquisador, ao longo do tempo o curso vem evoluindo, por conta de críticas e sugestões dos alunos. “Alguns falavam que o curso é muito puxado, então, aumentamos um dia. Se o curso ia até tarde da noite, agora não passa da meia-noite, em sala de aula; mas, na observação noturna, em campo, os alunos vão até as duas da manhã, observando e coletando a fauna”, conta.

Diferencial

 

Turma entomologia Foto Acervo José Albertino Rafael Cópia

 

A maioria dos participantes da disciplina Entomologia Geral é proveniente de Manaus e dos estados da região Norte. O pesquisador José Albertino vê isso como um ponto positivo. “Sou da época em que a maioria que entrava no curso de pós-graduação do Inpa era de alunos do sul e sudeste. E ao longo do tempo isso vem mudando, e é um reflexo da qualidade dos alunos que estão se formando em Manaus e outros estados do norte”, explica o pesquisador.

Para José Albertino, as turmas de pós-graduação do curso de Entomologia Geral saem com uma base muito boa na prática de reconhecimento dos diversos grupos de insetos, o que não é oferecida em outros cursos no Brasil ou no mundo. Segundo ele, aqui, no Inpa, se tem a possibilidade de se fazer o reconhecimento dos habitats e dos ambientes onde podem ser coletadas todas as ordens de insetos neotropicais.

“Por exemplo, uma ordem que se pensava que era extremamente rara, Zoraptera (parentes próximas dos cupins e das baratas), os alunos aqui do Inpa sabem onde coletar. Não é porque a espécie é rara, é porque não se tinha conhecimento de onde eles viviam”, destaca.

Premiação

A mestranda Alana Lopes, oriunda da universidade Federal do Amazonas (Ufam), foi a vencedora do prêmio “Colêmbolo de Ouro” (em referência a um grupo de insetos muito carismático) no "projeto de um dia". Ela trabalhou com o comportamento defensivo das formigas Camponotus, e intitulou seu texto de divulgação científica para a mídia “Alerta vermelho: ameaça à vista! Um exército de formigas como você nunca viu”.

O 2º  lugar foi para a mestranda Larissa Queiroz com o artigo “A incrível teia Hulk da Amazônia”, que trata da resistência da teia de uma espécie de aranha, enquanto o 3º lugar ficou com o mestrando Matheus Mauri Frascareli Bento com o artigo “Tamanho não é documento para as formigas”.   

Após aprenderem técnicas de Comunicação Científica, na disciplina anterior, os alunos põem em prática o conhecimento adquirido e transformam os resultados das atividades na Reserva Florestal Adolpho Ducke em produtos elaborados com uma linguagem simples e de fácil entendimento para todos.   

Para todo mundo, é um crescimento profissional muito grande. Mas o que me surpreendeu ao longo dessa semana foi o crescimento pessoal da equipe, no sentido de que todos se ajudaram”, destaca Alana Lopes. “Outra coisa importante foi a aprendizagem da observação e começar a partir do zero para tentar entender o processo de pesquisa”, complementa.

  

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