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Pesquisa avalia baixos níveis de antibióticos no sangue de pacientes sob tratamento da tuberculose em Manaus

Dependendo do alcance da concentração medicamentosa na corrente sanguínea de pessoas com tuberculose, ela pode evoluir para a cura ou para uma resistência, e consequentemente, falha terapêutica.

Pesquisa científica apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) buscou responder quais fatores estão relacionados aos diferentes níveis de medicamentos antituberculose encontrados no sangue de pacientes atendidos na Policlínica Cardoso Fontes, unidade de referência no diagnóstico e tratamento de pessoas acometidas por tuberculose, em Manaus.

De acordo com o coordenador do projeto, Igor Magalhães, no estudo foram abordados somente pacientes com tuberculose pulmonar considerados casos novos, ou seja, pacientes que nunca haviam tratado a doença.

Dr. Igor Magalhães - UFAM - Fotos Erico Xavier-43

Coordenador do projeto, Igor Magalhães.

 

O estudo foi desenvolvido na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), unidades pertencentes à Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio do Programa de Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS), Chamada Pública Nº 001/2013.

Sobre a tuberculose

O pesquisador explica que a tuberculose é uma doença infectocontagiosa causada principalmente pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, sendo o pulmão o principal alvo da ação desse microrganismo.

O quadro clínico clássico da tuberculose pulmonar inclui tosse persistente, com ou sem secreção, cansaço excessivo, falta de ar, febre baixa, mais comum à tarde, sudorese noturna, falta de apetite e perda de peso. 

Tratamento

O pesquisador explica que no Brasil o tratamento padrão para a tuberculose é medicamentoso, padronizado pelo Ministério da Saúde, e utiliza a combinação de quatro antibióticos: a isoniazida, a rifampicina, a pirazinamida e o etambutol, em uma terapia de, no mínimo, seis meses.

Segundo Igor Magalhães, apesar da grande eficácia do esquema terapêutico, determinados pacientes não respondem adequadamente ao tratamento e ocorre o desenvolvimento de linhagens de microrganismos resistentes aos fármacos utilizados para combater a infecção pulmonar.

Laboratório

Apesar da grande eficácia do esquema terapêutico, determinados pacientes não respondem adequadamente ao tratamento.

 

Durante o estudo foi observado que, apesar de alguns pacientes, por exemplo, tomarem um comprimido do mesmo medicamento, do mesmo lote, as concentrações desses fármacos no sangue podiam variar de uma pessoa para outra, o que compromete a eficiência da terapia.

“Neste contexto, diversos pesquisadores têm buscado entender os determinantes das baixas concentrações dos fármacos antituberculose, mesmo em pacientes submetidos ao tratamento supervisionado”, explicou.

Identificar o efeito das concentrações medicamentosas na corrente sanguínea pode ajudar a individualizar a posologia para adequá-la às necessidades de cada paciente.

Controle Terapêutico

Com o intuito de contribuir para o correto entendimento das possíveis falhas terapêuticas, verificadas na região Amazônica, foram realizadas análises bioquímicas, moleculares e as concentrações dos remédios antituberculose encontradas nas amostras biológicas (sangue) de 222 pacientes, com idades entre 18 e 87 anos, diagnosticados com tuberculose pulmonar.

Para o estudo foi relacionada uma série de fatores: genéticos, sociodemográficos, clínico-laboratoriais, sexo, idade, escolaridade, ocupação, pacientes com doenças crônicas e comorbidades (diabetes e pacientes que relataram o uso de álcool e tabaco durante o tratamento).

“Estudos recentes sugerem que há diferenças entre as concentrações de medicamentos alcançadas no sangue devido a diversas razões, incluindo a constituição genética de cada paciente”, disse o coordenador.

Foto material biológico

Foram realizadas análises bioquímicas, moleculares e as concentrações dos remédios antituberculose.

 

De acordo com ele, cada indivíduo absorve, metaboliza e elimina medicamentos com taxas diferentes que variam em função de idade, estado geral de saúde, e interferência de outros medicamentos que estejam utilizando.

A diabetes ocasiona uma série de alterações no funcionamento do organismo, por exemplo, no trato gastrointestinal. Também pode influenciar na absorção dos medicamentos antituberculose. Se absorver menos, a concentração do fármaco que alcança no sangue provavelmente será menor.

Para o pesquisador, conhecer melhor o que pode estar influenciando nessas concentrações de medicamentos no sangue desses pacientes, e dependendo do resultado, será possível estabelecer estratégias junto com as unidades de saúde para fazer ou não ajustes de doses dos antibióticos. 

Resultados

O estudo apontou baixas concentrações dos fármacos antituberculose no sangue dos pacientes. De acordo com o pesquisador o resultado é mais expressivo para os medicamentos isoniazida e rifampicina, em que aproximadamente 60% dos pacientes apresentaram níveis de medicamentos considerados reduzidos.

Dentre as variáveis empregadas no estudo para explicar os resultados, houve significância estatística entre o uso de álcool (etilistas) e metabolizadores rápidos da enzima N-acetiltransferase 2 (NAT-2) e concentrações reduzidas de isoniazida.

Equipamento

O estudou mostrou a alta prevalência de indivíduos que fazem uso de álcool, mesmo sob tratamento da tuberculose.

 

O estudou mostrou a alta prevalência de indivíduos que fazem uso de álcool, mesmo sob tratamento da tuberculose. Dentre eles, boa parcela apresentou baixos níveis de isoniazida, um dos principais fármacos elencados para o tratamento da doença. O que alerta para a necessidade de orientação correta e acompanhamento terapêutico adequado para esses pacientes.

As baixas concentrações dos fármacos de primeira linha também foram relatadas em outros estudos realizados no mundo, por exemplo, na Holanda, Turquia, Indonésia e África do Sul e podem sugerir a necessidade de reavaliação da faixa terapêutica tida como referência na literatura. No entanto, estudos adicionais devem ser realizados para avaliar o impacto da farmacogenética nestes resultados, bem como investigar a influência das baixas concentrações no desfecho do tratamento.

Casos no Amazonas 

O Amazonas possui a maior taxa de incidência de tuberculose no Brasil com 72,4 casos por 100 mil habitantes. Segundo o parâmetro do Ministério da Saúde, os números registrados são considerados altos. A taxa de incidência mede o risco de adoecimento na população, o que significa que o Amazonas é considerado o estado com maior risco de adoecimento por tuberculose no país e com a terceira maior taxa de mortalidade.

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), o Estado registrou em 2017, 3.060 novos casos de tuberculose. Em 2018, foram 3.163 casos registrados no Amazonas. Em 2019, até o momento foram registrados 563 casos novos.

 

Por: Helen de Melo

Fotos: Érico Xavier

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