Tese sobre Domesticação das Florestas Amazônicas do curso de Ecologia do Inpa conquista Prêmio

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Este ano o Prêmio Capes de Teses obteve recorde de inscrições com 1.140 candidaturas

 

Da Redação –Inpa

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A egressa do curso de doutorado em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), a bióloga Carolina Levis, conquistou o Prêmio Capes de Teses – 2019 na área de biodiversidade, uma das 49 áreas avaliadas. O trabalho “Domesticação das Florestas Amazônicas” trouxe evidências de que a Amazônia tem florestas domesticadas pelos povos indígenas desde pelo menos 13 mil anos.

Este é mais um reconhecimento ao trabalho de Levis, que já foi premiada com o 2º lugar no Prêmio Jovem Cientista - CNPq, em 2018, e com o II Prêmio Cientista e Empreendedor do Ano-“Biotecnologia Agro&Indrustrial” do Instituto Nanocell, em 2017. A tese foi defendida em 2018.

A bióloga foi orientada no doutora do do Programa de Pós-Graduação em Biologia (Ecologia) do Inpa pelos pesquisadores Flávia Costa e Charles Clement, e na Holanda pelos pesquisadores Frans Bongers e Marielos Peña-Claros, da Wageningen University & Research.

De acordo com Levis, a tese evidenciou efeitos persistentes das atividades humanas passadas na composição florística das florestas amazônicas atuais, especialmente em áreas próximas a sítios arqueológicos, onde o grupo de pesquisadores encontrou evidências de ocupação humana de longa duração. O estudo também descreveu múltiplas práticas de manejo locais que levaram à criação e manutenção de florestas com alta concentração de plantas muito importantes para a dieta dos povos amazônicos, como açaí, castanha e cacau.

“Nossos resultados indicam como parte da flora amazônica tem sido moldada pela interação entre processos naturais e práticas culturais dos seres humanos”, contou Levis, que atualmente é bolsista de pos-doc no PPG-Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Insights obtidos na tese incentivaram cientistas a reavaliarem estudos de ecologia e incorporarem o efeito da influência das populações humanas pré-colombianas (anteriores a conquista européia) e contemporâneas em suas áreas e objetos de pesquisa.

 

Manejo humano nas florestas

 

Carol Levis INPA Foto Acervo Pesquisadora

 

Segundo Carolina Levis, o tema do papel do manejo humano de longa duração sobre as florestas amazônicas atuais é raramente explorado nos estudos ecológicos, porém é de alta relevância para o planejamento e direcionamento de ações futuras de conservação e manejo dos patrimônios naturais e culturais ainda abundantes na região.

“Com base nos resultados da tese, a Amazônia também pode ser entendida como um patrimônio natural-cultural misto da humanidade, que merece ações integradas de conservação. Neste sentido, algumas ações concretas começaram a ser desenvolvidas durante a tese e deveriam ser expandidas em trabalhos futuros de conservação”, conta a bióloga.

A pesquisa identificou locais com alta riqueza de espécies com algum grau de domesticação, alta diversidade arqueológica e cultural, que devem ser incluídos nos planejamentos de áreas prioritárias de conservação. Outro passo importante é que se começou a compilar práticas de manejo local da floresta, para entender como manter paisagens florestais diversas e de grande utilidade às populações locais.

A parceria com a comunidade é outra vertente fundamental nas ações de conservação. “Também começamos a desenvolver atividades de educação científica em escolas dentro das unidades de conservação que trabalhamos (Flona Tapajós), dando poder às populações locais para se apropriarem do conhecimento científico e se tornarem parceiros na conservação do legado deixado pelos antigos habitantes da região”, disse Levis.

 

Estudos atuais

 

 

Carol Levis e Flavia Costa esq e dir INPA1 Foto Acervo Pesquisadora

 

Agraciada com uma bolsa no Prêmio Jovem Cientista do CNPq, Carolina Levis iniciou em março deste ano o Pós-doutorado no PPG Ecologia na UFSC. Ela continua estudando o efeito humano de longa duração nas paisagens florestais da América do Sul usando abordagens interdisciplinares. Além da Amazônia, a bióloga expandiu o trabalho para outros ecossistemas do Brasil, como a Mata Atlântica e o Cerrado.

No momento, estamos construindo as bases de dados e integrando novos conjuntos de dados biológicos, arqueológicos e ambientais para o Brasil, para replicar as análises que fiz na Amazônia nestes outros biomas. Esperamos que essas bases possibilitem o desenvolvimento de muitas pesquisas interdisciplinares, mas isso dependerá do investimento contínuo na pesquisa”, revelou.

 

Reconhecimento

 

Nos últimos anos, alunos e ex-alunos de mestrado e doutorado do Inpa têm conquistado premiações importantes, especialmente em função de estudos relevantes e publicações em revista de alto impacto. Entre eles, destacam-se alunos do PPG-Ecologia, único programa do Amazonas com nota 6 (a avaliação vai até 7) da Capes, considerado de nível internacional.

Para a pesquisadora do Inpa, Flávia Costa, esse reconhecimento é resultado de um longo e intensivo investimento que o PPG-Ecologia faz na formação dos estudantes, na dedicação intensa dos orientadores aos alunos, à exposição a um ambiente inter e multidisciplinar no curso, que permite aos estudantes irem além de seus assuntos específicos e ampliar a relevância de seus estudos.

Somam-se a isso o investimento na criação de importante infraestrutura de pesquisa pelos grandes projetos e programas do Inpa (como Peld, PPBio, LBA, Pronex, INCTs) que possibilita ao aluno obter grandes bases de dados que não poderiam obter sozinhos, e à atração de parcerias nacionais e internacionais.

“Isso significa um ambiente muito ativo de pesquisa, que induz os alunos a se comportarem como verdadeiros pesquisadores, estimulando sua originalidade, autonomia, multidisciplinaridade”, disse Costa, destacando que esse ambiente foi propício em função da dedicação das pessoas e ao financiamento contínuo da pesquisa científica nos últimos anos.

“Entretanto, vemos com muita preocupação os cortes de bolsas e financiamento de pesquisa que tivemos neste ano. Só em 2019, o PPG Ecologia já perdeu cinco bolsas de doutorado, e, em conjunto, os PPGs do INPA já perderam pelo menos 40 bolsas, o que representa uma perda muito importante de investimento na formação de recursos humanos de alta qualidade, principalmente em uma região ainda carente de pesquisadores como a Amazônia, completou.

 

Saiba Mais

 

A tese já rendeu cinco publicações, e mais duas devem sair ainda este ano.

  1. https://www.academia.edu/23437962/Antes_de_Orellana._Actas_del_3er_Encuentro_Internacional_de_Arqueología_Da_Amazônica
  2. https://science.sciencemag.org/content/355/6324/466
  3. https://science.sciencemag.org/content/355/6328/925
  4. https://science.sciencemag.org/content/358/6361/eaan8837
  5. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fevo.2017.00171/full

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