Jovens do interior do Amazonas aprendem no Inpa a fabricar objetos de madeira

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Escolhidos pela própria comunidade juntamente com pesquisadores do Laboratório de Manejo Florestal do Inpa (LMF), os alunos buscam no curso uma nova fonte de renda para a localidade

 

Por Letícia Misna – Inpa

Fotos: Letícia Misna e Cimone Barros

 

Em sua sétima edição, o Curso de Formação de Artefatos de Madeiras desta vez é voltado para jovens da comunidade Morena, de Presidente Figueiredo, interior do Amazonas. As aulas ocorrem por uma semana (de 15 a 19 de outubro), em período integral, com o objetivo de qualificar os participantes no conhecimento da tecnologia da madeira e em noções de empreendedorismo.

Artefatos decorativos, marchetaria, linha de escritório (porta-lápis, porta-papel), mesa. Estes são alguns dos produtos desenvolvidos pelos nove participantes, no Laboratório de Engenharia de Artefatos de Madeira (Leam), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC).

O curso de 40 horas é divido em cinco módulos, que dão aos participantes noções básicas sobre Empreendedorismo, Máquinas utilizadas em marcenarias e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e layouts para instalações. Também integram a formação Técnicas de marchetaria e desenvolvimento de produtos e Técnicas de acabamento. O módulo de Empreendedorismo foi ministrado pela mestra em Ciências Florestais, a engenheira florestal Roseneide Dias, que fez iniciação científica no Inpa no mesmo laboratório e há dez anos possui a própria empresa no ramo de Artefatos de Madeira.

“Nosso objetivo é capacitar os comunitários na arte de construir artefatos. E para valorizar mais a madeira inovamos o curso incluindo a parte de empreendedorismo”, disse a coordenadora do curso e responsável pelo Leam, à pesquisadora Claudete Catanhede. “Conscientizamos os alunos para evitar a exploração proporcionando a eles experiências com desenvolvimento de produtos com resíduos florestais e de processamento mecânico. Nós queremos que eles vejam a madeira com outro olhar”, completou a pesquisadora.

 

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Os jovens foram escolhidos pela própria comunidade. Foram pré-requisitos comprometimento, responsabilidade e o papel de se tornarem multiplicadores. Esther Feitosa, 19, que antes nunca havia se interessado pela área, viu no curso uma oportunidade para desenvolver uma profissão e ter fonte de renda. “A gente vem de uma comunidade em que não tem muito acesso a esse tipo de oportunidade. Acredito que isso é só o início pra gente”, revelou Feitosa.

Resíduos de Madeira

Para confecção dos objetos foram utilizados resíduos de madeira doados pela Mil Madeiras Preciosas, empresa instalada em Itacoatiara. Segundo Catanhede, as madeiras utilizadas no curso não são as mesmas encontradas na comunidade da Morena, mas elas possuem várias características semelhantes. Na comunidade são encontradas espécies como cardeiro, sucupira, vários tipos de angelins, mas no curso os alunos estão trabalhando com o angelim-vermelho, que é parecido em termo de caracterização.

“Inserimos também o marupá, que não tem na comunidade, mas fizemos isso para eles terem conhecimento de que para a adesão de duas espécies altamente resistentes, precisa-se de uma espécie de menor resistência e menor porosidade para ter uma colagem adequada”, explica Catanhede, que é engenheira florestal com doutorado em botânica.

 

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Obtidos durante o processamento mecânico do desdobro, do processamento de classificação da madeira, os resíduos da madeira costumam ser transformados em carvão, energia ou são desperdiçados. Por exemplo, para se vender uma tábua de primeira qualidade, ela deve estar isenta de defeito. “Como trabalhamos com pequenos produtos, podemos tirar amostras desse resíduo e transformar em produtos de alto valor agregado”, explicou Catanhede.

Marchetaria

Marchetaria, um dos principais módulos ministrados, é a técnica de fazer ornamentações (como mosaicos e ilustrações) através da colagem de diferentes tipos de madeiras. Segundo o instrutor do curso, o luthier e empresário Gean dos Santos Dantas, são usados vários tipos de recorte de variadas espécies de madeira, que depois são colados com uma cola própria, que precisa secar por 24 horas. Depois desse processo, com o “taco” (a peça bruta) pronto, é possível recortá-lo para fazer brincos, anéis, caixas, porta-lápis.

Laboratório

Serra de fita, serra circular, plainadeira, furadeira horizontal, desengrosso, lixadeira de rolo, lixadeira de disco e tupia são as máquinas com as quais os alunos estão aprendendo a lidar. Para a jovem Esther Feitosa, a serra circular, que serve para cortar a madeira em três tamanhos, foi à máquina mais difícil de trabalhar, por exigir maior atenção devido ao constante risco de acidente. “É preciso ter equilíbrio com a madeira, porque a máquina pode jogar o objeto em cima de você e de quem estiver perto. Todas podem fazer isso, na verdade, mas essa é a que pode causar acidentes mais graves”, contou.

 

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De acordo com o técnico do Leam Roberto Daniel, o essencial é ter atenção e respeito pelos equipamentos, estar atento quando for ligá-los e não usá-los para cortar coisas inadequadas, como uma ripinha muito fina numa máquina muito grande. Entre os acessórios de segurança necessários estão o protetor auricular para proteger os ouvidos dos ruídos das máquinas, os óculos de proteção para evitar fagulhas nos olhos, e a máscara para evitar a poeira no nariz e na boca.

“Para trabalhar na marcenaria, também é recomendável o uso de calça comprida e sapatos que permitam boa locomoção e evite o risco de escorregões, uma vez que pode ter resíduos no chão”, destacou Daniel.

As edições anteriores do curso já foram realizadas em municípios como Tefé, Baixo Juruá, Médio Juruá e Barcelos, e é promovido pelo Inpa e pelo Leam, no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) – Madeiras da Amazônia, que possui financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapem).

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